AS ORIGENS
As suas origens são também fruto de debate, mas a versão mais consensual é que terá tido origem como um meio de defesa dos escravos do Brasil no século XVI, dissimulado numa dança para que os seus proprietários não o identificassem. O que é garantido é que esses escravos, originários de vários locais em África, mantiveram as raízes da sua herança através de diversos costumes e rituais, e a Capoeira nasce de um conjunto de tradições ancestrais.
Algumas fontes referem a inspiração
da dança ritual N’Golo, baseada nos movimentos de zebras; as lutas de galos são
outra das fontes que poderão ter estado na origem da Capoeira. O que está
comprovado é que foi no Brasil que nasceu a Capoeira – historicamente
referenciada já no século XVIII (sendo decerto mais antiga) – por entre os
grupos de escravos.
O uso como arte marcial e técnica de
luta (e certamente a sua eficácia) levaram à sua proibição, com elevadas
punições para os capoeiristas. No início do século XX a Capoeira encontrava-se
ainda legalmente interditada, e foi por pouco que a arte não se extinguiu.
Aos poucos a perseguição foi-se
esvaindo, e em 1932 é fundada a primeira academia oficial de Capoeira, pelas
mãos de um dos maiores impulsionadores de sempre, o Mestre Bimba. Pouco depois,
a sua iniciativa foi seguida pelo Mestre Pastinha, outro importante incitador,
baseando-se numa abordagem mais tradicional. Assim nascia este fenômeno mundial
e, ao mesmo tempo, as duas principais correntes de Capoeira.
AS DUAS CORRENTES
Capoeira
Angola
A Capoeira Angola foi recuperada pelo
Mestre Pastinha com a abertura da sua academia em 1941. Consiste na forma mais
tradicional de Capoeira, altamente ritualista, remontando à herança tribal de
África, e chega a ser considerada (sobretudo pelos seus praticantes) como a
“verdadeira Capoeira”.
Capoeira
Regional
A Capoeira Regional tem a sua origem
no Mestre Bimba, que considerava que esta arte estava a perder progressivamente
a sua componente de luta. Uma vez que se tratava de uma prática proibida, os
capoeiristas remetiam-se à clandestinidade, sendo cada vez menores em número e
sem comunicação entre si. O Mestre Bimba pretendeu lutar contra esta tendência,
e começou a recuperar práticas e movimentos antigos, definiu uma filosofia e
código próprios, e concebeu mesmo novos golpes. É a ele que se deve a criação
da primeira academia de Capoeira do mundo, e com o seu ativismo, é também
considerado o principal impulsionador para a legalização, aceitação e
valorização social e cultural deste património brasileiro. A Capoeira Regional
é assim uma abordagem moderna de Capoeira, devidamente organizada e
hierarquizada, e é de longe a corrente mais praticada não só no Brasil, mas
também em todo o mundo.
Independentemente das diferenças
entre estas duas correntes, mais filosóficas que práticas, ambas são praticadas
num verdadeiro ritual, constituído por diferentes partes e componentes.
Em suma, a Capoeira é uma simulação
de luta e não tanto uma luta efetiva. O “jogo” não tem como objetivo atingir o
adversário, mas antes dar asas à liberdade de movimentos ofensivos e
defensivos, através de diferentes golpes, reduzindo a margem de manobra do
oponente. O capoeirista não precisa atingir o adversário, basta colocá-lo numa
posição em que não se consiga defender.
Mas o ritual é muito mais do que
apenas esse jogo.
O RITUAL
A
Música
A música é parte essencial da
Capoeira, sendo mesmo a sua velocidade que marca o ritmo dos movimentos dos
capoeiristas. A roda de Capoeira integra uma bateria com vários instrumentos
tradicionais brasileiros: ainda que a maioria seja de precursão, aquele que
assume maior protagonismo é o berimbau. Os membros da roda acompanham a música
com cantares típicos, por vezes semelhantes aos cantares de desafio, e todo
este conjunto cria o ambiente único que apenas a Capoeira permite. A
importância da música é tal que o Mestre Bimba afirmou mesmo que um verdadeiro
capoeirista tem que saber lutar tanto como tocar e cantar!
A
Roda
A roda de Capoeira é onde decorre a ação,
criando um círculo no interior do qual se defrontam os capoeiristas. Os
restantes elementos, sejam adversários à espera da sua vez, sejam os músicos,
seja mesmo o público em geral, criam um círculo com uma média de 5 metros de
diâmetro.
O
Jogo
O jogo em si é o confronto entre os
dois praticantes. Como foi referido, esta “luta” não implica, na generalidade, contato
físico, mas antes uma demonstração das capacidades. Cada ataque fica-se pela
ameaça, sendo que antes de ser concretizado já o adversário terá efetuado uma
manobra defensiva que o evitaria. A sucessão de movimentos gera uma verdadeira
dança metafórica (ou mesmo no sentido literal da palavra), com gestos
elegantes, ágeis e acrobáticos, recorrendo com frequência a saltos mortais e
outras manobras igualmente aparatosas.
Ginga
A Ginga é o movimento base de Capoeira, e ao mesmo tempo o mais célebre. Consiste numa “dança” de pés triangulares, balançando os braços ao ritmo do corpo, que servirá também de preparação para os movimentos. É verdadeiramente inconfundível: quando vir alguém a fazê-lo, saberá instantaneamente que está na presença de um capoeirista!
A Ginga é o movimento base de Capoeira, e ao mesmo tempo o mais célebre. Consiste numa “dança” de pés triangulares, balançando os braços ao ritmo do corpo, que servirá também de preparação para os movimentos. É verdadeiramente inconfundível: quando vir alguém a fazê-lo, saberá instantaneamente que está na presença de um capoeirista!
Ataques
Os movimentos ofensivos utilizam maioritariamente as pernas, com ataques de pés
e joelhos. Os cotovelos são também utilizados com alguma regularidade, ao passo
que murros e outros golpes de mãos não são utilizados em Capoeira. Um golpe
também utilizado com frequência é a cabeçada!
Defesa
A defesa consiste na grande maioria no recurso a manobras evasivas, e
eventualmente, contra-ataques. Daí que a Capoeira possa ser vista como um jogo
de movimentações, em que se considera que o atacante teve sucesso quando efetuou
manobras tais que deixou o adversário sem escape possível.
Volta ao Mundo
Quando uma manobra é concluída (como na situação anteriormente descrita) ou na
eventualidade de qualquer outra interrupção do ritmo do jogo, os dois
capoeiristas afastam-se e circulam calmamente pelos limites da roda, dando a
“volta ao mundo”.
Na generalidade, estes são os
“episódios” do ritual de um jogo de Capoeira, havendo depois pormenores e especificidades quer na Capoeira Regional, quer na Angola.
A CAPOEIRA… À VOLTA DO MUNDO!
Com o passar dos anos, a Capoeira
tem-se espalhado um pouco por todo o mundo, sendo cada vez mais popular em
países como Japão e Estados Unidos. Apesar de haver hoje uma enorme pluralidade
cultural, social e étnica por entre os capoeiristas, os mestres são geralmente
brasileiros, o que assegura a manutenção das origens desta arte.
Uma arte, que marcial ou não, é um
símbolo máximo da herança cultural de um povo, com o mesmo peso que terá o
Karaté para o Japão ou o Tae-kwon-do para a Coreia. Tanto o é que a Capoeira
foi recentemente declarada Património Cultural Brasileiro pelo Instituto do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, depois de em 1985 se ter declarado o
dia 3 de Agosto como o Dia do Capoeirista.
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